25 mar 2026 Fonte: Plataforma Portuguesa das ONGD Temas: Agenda 2030, Sociedade Civil, Pobreza e Desigualdades, Paz e gestão de Conflitos, Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, Migrações e Refugiados, Igualdade de Género, Direitos Humanos, Comunicação, Cidadania e Participação, Capacitação institucional / comunitária, Advocacia Social e Política
Há uma frase no relatório State of Civil Society 2026 da CIVICUS que merece ser lida com atenção: "os autocratas e oligarcas compreendem que nada muda se ninguém acreditar que pode mudar – e é por isso que trabalham tão arduamente para fabricar o desânimo." O desânimo não é apenas um efeito colateral da crise democrática contemporânea. É, em muitos contextos, um objetivo deliberado. Uma população convencida da sua própria impotência é uma população que não organiza, não exige e não incomoda.
O relatório, publicado em março de 2026 e baseado em mais de 250 entrevistas e 100 artigos, cobrindo cerca de 100 países e territórios, documenta o estado da sociedade civil global depois de um ano que confirmou as tendências mais preocupantes da última década, e introduziu algumas novas. A democracia está em recuo acelerado, com juntas militares a formalizar o seu poder em África, regimes híbridos a usar mecanismos legais para eliminar a competição política e líderes eleitos a desmantelar os próprios sistemas que tornaram a sua eleição possível. O espaço cívico está a fechar através de leis de "agentes estrangeiros" que se espalharam da Rússia para a Eslováquia, El Salvador e Bósnia-Herzegovina. O financiamento internacional da sociedade civil está a colapsar com o desmantelamento da USAID e os cortes de vários Estados europeus. A impunidade normalizou-se em conflitos que vão de Gaza ao Sudão, da Ucrânia ao Myanmar.
E no entanto, este não é um relatório sobre derrota.
O que o poder não controlou
Em junho de 2025, a Geórgia completou 200 dias consecutivos de protestos exigindo novas eleições e a retoma do processo de adesão à União Europeia. Em março, a detenção politicamente motivada do Presidente da Câmara de Istambul desencadeou uma vaga de manifestações liderada pela Geração Z, à qual o governo turco respondeu com violência, mas que não conseguiu parar. Nos Estados Unidos, o movimento "No Kings" mobilizou o que pode ter sido o maior protesto da história do país. No Bangladesh, uma revolta popular em 2024 derrubou um governo autoritário e o país realizou as suas primeiras eleições credíveis em quase duas décadas, em fevereiro de 2026.
Em julho de 2025, o Tribunal Internacional de Justiça emitiu um parecer histórico estabelecendo que os Estados têm o dever jurídico de prevenir danos ambientais decorrentes das alterações climáticas. A iniciativa partiu de estudantes das Ilhas do Pacífico que, em 2019, formaram uma rede para persuadir os seus governos a solicitar essa decisão. Em Espanha, uma campanha da sociedade civil que recolheu mais de 700 000 assinaturas resultou na regularização de 500 000 migrantes sem documentação. Na Bélgica, quatro organizações da sociedade civil obtiveram uma decisão judicial que obrigou o governo a suspender o envio de material militar para Israel, por violação do Tratado sobre o Comércio de Armas. Grupos de mulheres nas Filipinas documentaram milhares de execuções extrajudiciais sob o governo de Duterte. Hoje, Duterte está detido pelo Tribunal Penal Internacional.
Estas vitórias são o resultado de trabalho paciente, de coligações improváveis e de anos de documentação e litigação que raramente fazem manchetes, mas que produzem consequências reais.
A resistência tem método
O que distingue os movimentos que o relatório documenta não é apenas a sua coragem – é o seu método. A Geração Z desenvolveu formas de organização que respondem diretamente às condições do presente: liderança coletiva e descentralizada que não depende de figuras únicas facilmente neutralizáveis; uso estratégico de plataformas digitais que oferecem algum grau de anonimato e resistência à repressão; partilha internacional de táticas em tempo real. Os manifestantes de Madagáscar inscreveram-se nas comunidades Discord do Nepal para aprender com a sua experiência. O mesmo símbolo – a bandeira One Piece – circulou de protesto em protesto através de fronteiras e línguas diferentes. Uma geração que cresceu conectada está a usar essa conexão para construir algo que os poderes instalados têm dificuldade em replicar: solidariedade horizontal sem hierarquia central.
Mas a resistência não é apenas jovem. É também a advogada que representa gratuitamente um requerente de asilo em detenção. É o grupo humanitário europeu que recusa parar de ajudar migrantes no mar apesar de ser criminalizado por isso. É a mulher afegã que mantém uma escola clandestina a funcionar sob um regime que tornou a educação feminina um crime. É o investigador ucraniano que usa ferramentas de inteligência artificial para documentar crimes de guerra. São formas muito diferentes de resistência, mas que partilham a recusa comum de aceitar que a situação presente seja a única situação possível.
O que está em jogo
O relatório da CIVICUS é explícito sobre a dimensão do desafio. A erosão democrática, a crise climática, a impunidade nos conflitos, a hostilidade à migração e o desmantelamento dos direitos das mulheres e das pessoas LGBTQIA+ não são crises separadas, a ser geridas por organizações separadas, em salas separadas. São expressões interligadas de um momento político em que elites económicas, políticas e tecnológicas estão a consolidar o poder à custa dos direitos humanos e em que os mecanismos internacionais concebidos para limitar esse poder estão a ser sistematicamente enfraquecidos pelos mesmos Estados que mais beneficiaram das suas proteções.
Perante isto, a tentação do desânimo é compreensível. Mas o relatório argumenta, com evidência, que o desânimo serve os poderosos e não os que resistem. Cada vitória documentada, por menor que pareça, por mais invisível que tenha sido nos meios de comunicação social, é a prova de que a pressão organizada produz resultados. Que os tribunais podem ser instrumentos de mudança. Que a solidariedade atravessa fronteiras. Que uma geração que recusa acreditar que está destinada a perder tem razões para essa recusa.
Resistir contra a corrente não é um ato de otimismo ingénuo. É um ato político consciente, fundado no reconhecimento de que o presente não é inevitável e de que o futuro está, como sempre esteve, em disputa.