26 fev 2026 Fonte: Plataforma Portuguesa das ONGD Temas: Financiamento para o Desenvolvimento, Setor Privado, Agenda 2030, Sociedade Civil, Pobreza e Desigualdades, Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, Economia solidária / alternativa / Microcrédito, Direitos Humanos, Cidadania e Participação, Advocacia Social e Política
Relatório Oxfam "Resisting the rule of the rich"
O novo relatório da Oxfam International, “Resisting the Rule of the Rich”, lança um alerta claro: estamos perante uma escalada sem precedentes da desigualdade económica que está a corroer as bases da democracia em todo o mundo.
Em 2025, a riqueza dos bilionários cresceu a um ritmo três vezes superior à média dos cinco anos anteriores. O número de bilionários ultrapassou, pela primeira vez, os 3000, e a sua fortuna total atingiu níveis históricos. Enquanto isso, quase metade da população mundial vive na pobreza e uma em cada quatro pessoas enfrenta insegurança alimentar moderada ou grave. A distância entre o topo e a base da pirâmide nunca foi tão abissal.
Mas a verdade é que o problema não é apenas económico – é profundamente político.
O relatório demonstra que países mais desiguais são até sete vezes mais propensos a sofrer erosão democrática. Quando a riqueza se concentra de forma extrema, o poder político tende a segui-la. A influência desproporcionada dos super-ricos manifesta-se no financiamento de campanhas eleitorais, no controlo de meios de comunicação social, na captura de processos legislativos e na pressão sobre decisões fiscais e regulatórias. O resultado é uma distorção do princípio democrático: deixa de ser “uma pessoa, um voto” e aproxima-se perigosamente de “um dólar, um voto”.
A desigualdade económica transforma-se, assim, em desigualdade política. Estudos citados no relatório mostram que, à medida que os recursos económicos se tornam mais concentrados, as políticas públicas passam a refletir sobretudo as preferências dos grupos de rendimento mais elevado. As vozes das maiorias – particularmente das pessoas em situação de pobreza, das mulheres, das comunidades racializadas e de outros grupos marginalizados – tornam-se progressivamente invisíveis.
Ao mesmo tempo, assistimos a um recuo global dos direitos e liberdades. Segundo dados recentes, 2024 marcou o 19º ano consecutivo de declínio da liberdade no mundo. Em mais de 60 países, registou-se uma deterioração dos direitos políticos e das liberdades cívicas: protestos contra o aumento do custo de vida, a austeridade e a desigualdade têm frequentemente enfrentado repressão, detenções arbitrárias e restrições à liberdade de expressão.
Em vez de redistribuir riqueza e investir em políticas públicas que reduzam desigualdades, muitos governos optam por proteger interesses instalados e reforçar mecanismos de controlo social. A concentração extrema de riqueza torna-se, assim, um fator de instabilidade democrática e de normalização de práticas autoritárias.
O relatório sublinha ainda que o controlo crescente de plataformas digitais e meios de comunicação por bilionários amplia este desequilíbrio. Quando um número reduzido de indivíduos detém simultaneamente poder económico, mediático e político, a capacidade de moldar narrativas públicas e influenciar o debate democrático torna-se extraordinária.
No entanto, a Oxfam reforça que este cenário não é inevitável.
A organização propõe três caminhos centrais: reduzir radicalmente a desigualdade económica, limitar a influência política dos super-ricos e fortalecer o poder democrático da maioria. Isso implica políticas fiscais progressivas eficazes, maior transparência no financiamento político, regulação do lobbying e proteção ativa do espaço cívico.
A mensagem é inequívoca: a escolha é entre oligarquia e democracia. Sociedades que toleram níveis extremos de concentração de riqueza colocam em risco os próprios alicerces da representação política e da igualdade de direitos. Pelo contrário, investir na redistribuição, na justiça fiscal e na participação cidadã é essencial para proteger as liberdades conquistadas e construir instituições mais resilientes.
Num contexto em que o custo de vida aumenta, os serviços públicos enfrentam pressão e o descontentamento social cresce, ignorar a dimensão política da desigualdade é um erro estratégico. A erosão democrática não acontece de um dia para o outro – é um processo gradual, alimentado por desequilíbrios estruturais que favorecem poucos em detrimento de muitos.
Defender a democracia hoje exige enfrentar de forma frontal a concentração extrema de riqueza. A justiça económica não é apenas uma questão social; é uma condição indispensável para a sobrevivência democrática.