07 jul 2026 Fonte: Médicos sem Fronteiras Portugal Temas: Paz e gestão de Conflitos, Migrações e Refugiados, Direitos Humanos, Ajuda Humanitária e de Emergência, Água e Saneamento, Advocacia Social e Política
Fotografia de Médicos sem Fronteiras
Conhecemos Saber no hospital da MSF em Deir al-Balah. Explicou-nos que a tenda da família havia sido atingida por um míssil israelita, que lhe matou a filha de 10 anos. Saber, que estava a recuperar da amputação de ambas as pernas, confidenciou-nos que, apesar da pouca idade da filha, ela carregava preocupações que nenhuma criança deveria ter. “Quando chegava o camião-cisterna com água, pegava nos garrafões e dizia ‘está ali o camião, vamos enchê-los’”, recorda. “Normalmente, as crianças pensam em brincar ou em brinquedos, mas as preocupações da minha filha eram diferentes.”
Nas palavras deste pai palestiniano, encontramos precisamente o que constitui um genocídio: camadas e camadas de sofrimento infligidas indiscriminadamente sobre uma população. Para Saber, sofrimento é ser forçado a deslocar-se e viver com a família numa tenda improvisada e insalubre, sem acesso adequado a água limpa. É ver a filha de 10 anos em modo sobrevivência. É, depois disto tudo, assistir à morte dela num bombardeamento israelita.
Se o sofrimento é multifacetado, a violência também o é. De facto, a dimensão da campanha de punição coletiva perpetrada por Israel é tal que alcança o mais elementar dos direitos humanos: o acesso à água, condição indispensável à vida e à dignidade, que as autoridades israelitas têm utilizado como arma contra os palestinianos – e que trocou as prioridades à filha de Saber, que deixou de pensar em brincar, porque não tinha aquilo que nunca devia faltar a nenhuma criança.
Mas Israel destruiu ou danificou quase 90 por cento das infraestruturas de água e saneamento em Gaza, incluindo estações de dessalinização, furos de água, condutas e sistemas de esgotos. As equipas da MSF documentaram casos em que as próprias forças israelitas dispararam contra camiões-cisterna claramente identificados, ou destruíram furos de água que constituíam uma fonte de vida para dezenas de milhares de pessoas.
Além disso, um terço dos pedidos da MSF para fazer entrar material essencial para o abastecimento de água e saneamento foram rejeitados ou ficaram sem resposta por parte das autoridades israelitas – e muitos dos artigos que foram aprovados foram posteriormente recusados na fronteira.
A escassez artificial de água em Gaza é de tal ordem que as necessidades continuam muito acima da capacidade de resposta, apesar da MSF distribuir mais de 4,7 milhões de litros de água por dia no enclave. Entre maio e novembro de 2025, 21 por cento das distribuições de água da MSF terminaram antes de todas as pessoas na fila serem abastecidas.
Saber lembra-se bem daquilo que enfrentou (e continua a enfrentar): “Quando não tínhamos água suficiente, beber tornava-se a prioridade absoluta. O mais importante eram as minhas filhas, porque elas precisavam de água. Algumas famílias privavam-se de comida para dar água aos filhos.”
Fotografia de Médicos sem Fronteiras
A falta de acesso à água e à higiene, aliada a condições de vida precárias, como as tendas sobrelotadas e improvisadas, também contribui para o aumento de doenças. As doenças de pele representaram quase 18 por cento das consultas da MSF em 2025 e as doenças gastrointestinais são também um desafio constante. Mas não é apenas uma questão de saúde – é uma questão de dignidade.
“As pessoas vivem em tendas no chão, e a sujidade entra nas feridas. Por vezes, encontramos insetos ou larvas nessas feridas”, descreve um médico da MSF. “Além disso, a sarna e os piolhos propagam-se muito rapidamente – a nossa última embalagem de tratamento contra piolhos durou-nos apenas três dias! Desinfetamos e tratamos as pessoas, mas elas voltam para as tendas delas para depois regressarem até nós com os mesmos problemas.”
Para as mulheres, estes níveis de indignidade eram impensáveis há uns anos, mas são agora uma afronta diária para as palestinianas. Sem água para tomar banho e sem acesso a pensos higiénicos, como é que se menstrua em Gaza? Rachel, uma representante do campo de deslocados onde mora, explicou à MSF que sem pensos e duches, “o odor fica tão intenso que as pessoas não conseguem estar perto de nós”.
É isto. Isto é um genocídio: um sofrimento multifacetado do céu até à máxima intimidade do nosso corpo. Para além da sede, a própria fome empurra esta violência para o lugar onde a vida devia começar protegida. Entre o fim de 2024 e o início de 2026, em dois hospitais apoiados pela MSF, mais de metade das grávidas observadas foram afetadas por desnutrição durante a gestação e 25 por cento estavam desnutridas no momento do parto. Nesse período, 90 por cento dos bebés de mães desnutridas nasceram prematuros e a mortalidade neonatal foi duas vezes superior à registada entre bebés de mães sem desnutrição.
“Vão mudar alguma coisa? Vão dar-me próteses? Vão trazer a minha filha de volta? Se ao menos os líderes mundiais nos tivessem apoiado desde o início. Porque é que as crianças têm de passar por isto?”, questiona Saber, enquanto segura uma fotografia da filha, tirada quando ela ainda estava viva.
Artigo de Médicos sem Fronteiras Portugal