28 mai 2026 Fonte: Plataforma Portuguesa das ONGD Temas: Advocacia Social e Política, Capacitação institucional / comunitária, Direitos Humanos, Migrações e Refugiados, Sociedade Civil, União Europeia
O novo Relatório do Espaço Cívico 2026 foi publicado pelo European Civic Forum (ECF) em maio de 2026, com capítulos redigidos pelo seu secretariado, organizações membros e parceiras. Grande parte do conteúdo teve origem na submissão do ECF à consulta da Comissão Europeia sobre o Estado de Direito, enquanto alguns relatórios nacionais foram inicialmente publicados no âmbito do projeto Monitoring Action for Civic Space (MACS). O ECF é uma rede pan-europeia com mais de 100 associações e ONG em 30 países europeus, fundada em 2005, que há quase duas décadas trabalha para proteger o espaço cívico, promover a participação cidadã e construir um diálogo civil em prol de maior igualdade, solidariedade e democracia na Europa. O capítulo português foi elaborado por Jonni Lopes, da Academia Cidadã – uma organização sem fins lucrativos dedicada a fomentar a cidadania ativa e a fortalecer a democracia em Portugal, que capacita indivíduos para participar na vida cívica, defender os seus direitos e envolver-se nos processos democráticos.
Apesar de Portugal ser classificado como "Aberto" pelo Monitor CIVICUS, o relatório assinala uma deterioração substancial das liberdades cívicas no país, que justifica a necessidade de intervenção precoce. O relatório da Comissão Europeia sobre o Estado de Direito de 2025 recomendou que o governo português melhorasse a transparência do processo legislativo, nomeadamente na implementação de ferramentas de avaliação de impacto, e adotasse regras sobre a regulação do lobbying. Em 2026, Portugal adotou um quadro legal para a representação de interesses (Lei n.º 5-A/2026), respondendo em grande medida às recomendações europeias sobre a transparência da influência privada na tomada de decisão pública, embora a sua eficácia dependa da implementação. Três tendências críticas atravessam toda a análise do relatório: a repressão seletiva do protesto pacífico com recurso a violência policial; a fragilização financeira e imobiliária das organizações da sociedade civil; e a ascensão da extrema-direita com a consequente normalização de discursos xenófobos e anti-direitos que alimentam crimes de ódio e um ambiente hostil à defesa dos direitos humanos.
Liberdade de Associação sob Pressão
Embora o artigo 46.º da Constituição da República Portuguesa garanta o direito de constituir associações livremente e sem autorização prévia, na prática este direito torna-se inacessível para muitos migrantes e as organizações que os representam. Segundo o relatório, as reformas restritivas em matéria de política migratória, combinadas com graves falhas na administração da migração, mantêm muitos imigrantes num limbo legal que os impede de participar plenamente na vida associativa e cívica do país.
A Lei n.º 61/2025 endureceu significativamente o acesso à nacionalidade e à residência: os períodos de naturalização foram alargados para sete anos para nacionais dos países da CPLP e para dez anos para outras nacionalidades, o que duplica na prática os requisitos anteriores. A nova agência responsável pela migração, AIMA, tem revelado disfunções administrativas que comprometem o usufruto de direitos, com tempos de espera prolongados para pedidos de visto, renovações de documentos e pedidos de naturalização. Nos primeiros quatro meses de 2025, as reclamações dirigidas à AIMA no Portal da Queixa aumentaram 37% face ao período homólogo de 2024, com uma taxa de resolução de apenas 14,9% e um nível de satisfação de 17,8 em 100.
A isto acrescem casos documentados de intimidação policial: entre outubro de 2024 e abril de 2025, registaram-se quatro rusgas ao Planeta Manas, um centro cultural LGBTQI+ em Loures, realizadas sem mandado judicial e que resultaram em agressões físicas, abuso verbal homofóbico e, por fim, no encerramento e expulsão da comunidade. A gentrificação dos centros urbanos agrava ainda mais o quadro: a Academia de Amadores de Música de Lisboa viu a sua renda aumentar 588%, e a Casa Independente anunciou o encerramento para o final de 2026, pressionada pela especulação imobiliária.
Crise de Financiamento da Sociedade Civil
Como demonstra o relatório, as organizações da sociedade civil (OSC) em Portugal enfrentam uma crise estrutural de sustentabilidade financeira. Uma avaliação recente das ONG portuguesas, realizada pela Universidade Católica Portuguesa para a Fundação Calouste Gulbenkian, revela que mais de 50% dos rendimentos das ONG provêm de financiamento público, enquanto apenas 7% têm origem em contribuições voluntárias. Esta dependência de fontes voláteis agravou-se dramaticamente no período pós-pandemia.
No setor das Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), a percentagem de entidades com resultados líquidos negativos saltou de 33,8% em 2022 para 40,9% em 2023 – uma deterioração classificada pela Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS) como "muito grave". O acesso aos fundos europeus é dificultado por barreiras burocráticas: prazos de processamento de um a dois anos, taxas de cofinanciamento de 75-85% e regras de elegibilidade complexas favorecem as grandes organizações, excluindo as entidades de base comunitária que estão mais próximas das pessoas. Paradoxalmente, o número de beneficiários diretos das ONG aumentou 275% entre 2014 e 2024, enquanto o número médio de membros das associações diminuiu 63,4% no mesmo período.
Repressão do Protesto Pacífico
O relatório alerta ainda para o facto de o direito à manifestação pacífica, consagrado no artigo 45.º da Constituição, ter vindo a ser crescentemente instrumentalizado. Em 2025, o quadro legal tornou-se uma ferramenta de aplicação seletiva, visando sobretudo movimentos climáticos, grupos de solidariedade com a Palestina e organizações antirracistas. Entre julho de 2025 e janeiro de 2026, membros de movimentos climáticos reportaram 87 processos administrativos e judiciais em curso contra si, com um total de 28.140 euros em multas já emitidas e mais 250.000 euros em penalidades potenciais – valores cerca de dez vezes superiores ao rendimento anual médio de um trabalhador português.
Durante a Volta a Portugal em bicicleta, em agosto de 2025, manifestantes com bandeiras palestinianas na Nazaré e Caldas da Rainha foram sujeitos a abusos de autoridade por parte de agentes da PSP: identificações sem justificação legal, uso de força física e detenções com base no fundamento de participação em "manifestação ilegal", que não existe na lei portuguesa para ajuntamentos pacíficos. Quatro dos seis detidos viram as acusações arquivadas por ausência de base legal.
Na greve geral de 11 de dezembro de 2025, convocada pela CGTP-IN e pela UGT – a maior ação coordenada das duas principais confederações sindicais portuguesas desde 2011 –, a polícia respondeu de forma desproporcionada a incidentes isolados de vandalismo envolvendo menos de 50 pessoas, disparando munições de energia cinética (balas de borracha) indiscriminadamente sobre a multidão, atingindo entre 10 a 15 pessoas maioritariamente na cabeça e no tronco. Este uso de força violou o Decreto-Lei n.º 457/99, que classifica as balas de borracha como "armas de fogo", proíbe expressamente o seu uso para dispersão de multidões e exige avisos audíveis antes da sua utilização.
Liberdade de Expressão e Desinformação
A liberdade de expressão, garantida pelo artigo 37.º da Constituição, enfrenta uma erosão crescente. Em 2025, estudos nacionais identificaram 14,6% dos municípios portugueses como "desertos de informação" sem cobertura local regular, enquanto 55% dos municípios carecem de cobertura noticiosa adequada ou sustentável. Quase metade dos jornalistas portugueses reporta elevados níveis de esgotamento profissional e precariedade laboral, e cerca de metade admite ter experienciado censura ou autocensura.
Entre julho e dezembro de 2025, Portugal foi alvo de uma campanha coordenada de desinformação anti-imigração: narrativas falsas acumularam 3,8 milhões de visualizações, e a hashtag #PortugalInvadido atingiu 21 milhões de impressões – cinco vezes mais do que as hashtags sobre corrupção governamental. A análise de redes identificou que 58% das contas que amplificavam estas narrativas eram automatizadas ou fabricadas, com coordenação originária em países terceiros, sugerindo interferência transnacional na democracia portuguesa.
Extremismo e Crimes de Ódio
A extrema-direita aumentou exponencialmente a sua presença na Assembleia da República, crescimento que foi acompanhado de retórica xenófoba, racista e homofóbica com impunidade parlamentar. A presença de elementos neo-nazis nas forças de segurança – revelada em junho de 2025, com 12 indivíduos em posições de liderança na PSP, GNR e Marinha identificados como membros do grupo paramilitar Armilar Lusitano – que o relatório destaca como uma ameaça grave ao Estado de Direito.
Entre 2021 e 2024, as forças policiais receberam 987 queixas formais por discriminação, racismo, xenofobia e incitamento ao ódio. Em 2024, a polícia judiciária abriu 228 investigações formais, mas apenas cinco resultaram em acusação – uma taxa de 2,19%. Com apenas 13 condenações por discriminação racial em todo o país entre 2017 e 2024, o sistema funciona, na prática, como um mecanismo de impunidade que encoraja a repetição dos ataques.
Conclusão
O relatório conclui que, apesar de Portugal manter um quadro jurídico formalmente robusto para as liberdades cívicas, o espaço cívico continuou a encolher ao longo de 2025. A combinação de barreiras administrativas à participação cívica dos migrantes, a pressão imobiliária sobre os espaços comunitários, a intimidação policial de comunidades vulneráveis e uma crise estrutural de financiamento está a criar um ambiente de espaço cívico em retração que, embora não tome a forma de repressão aberta e severa, produz efeitos semelhantes de silenciamento, fragmentação e enfraquecimento da capacidade de organização coletiva.