26 mar 2026 Fonte: Plataforma Portuguesa das ONGD Temas: Advocacia Social e Política, Cidadania e Participação, Coerência das políticas, Direitos Humanos, Igualdade de Género, Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, Pobreza e Desigualdades, Saúde, Sociedade Civil, Agenda 2030
Passado mais um 8 de março – Dia Internacional das Mulheres, e 30 anos depois da Declaração de Pequim, vale a pena parar e perguntar: onde estamos, de facto? A resposta é desconfortável. Houve avanços reais, sim. Mas houve também recuos, promessas esquecidas e uma persistente tendência para tratar os direitos das mulheres como um assunto secundário, sempre adiável, sempre dependente de outras prioridades.
O que os dados e as histórias nos dizem é que o progresso existe, mas é seletivo. Chega mais facilmente às mulheres urbanas, com acesso à educação e à cidadania plena. Demora mais, ou não chega, às mulheres indígenas, afrodescendentes, migrantes, às que vivem em zonas rurais ou em contextos de pobreza extrema. A igualdade que celebramos nas estatísticas é, muitas vezes, a igualdade de algumas. E isso não é igualdade, é privilégio.
Violência: a epidemia silenciosa
A violência de género atravessa fronteiras, classes sociais e sistemas políticos. Acontece em países ricos e pobres, em democracias consolidadas e em regimes autoritários. Manifesta-se no lar, na rua, no trabalho, nas instituições e, cada vez mais, nos espaços digitais, onde o ódio misógino encontrou uma plataforma sem precedentes.
Em contextos de guerra e conflito armado, esta violência intensifica-se e assume formas deliberadas: o corpo das mulheres é usado como arma, a violação como estratégia militar, o deslocamento forçado como punição coletiva. E quando os conflitos terminam, a violência raramente termina com eles – os campos de refugiados, a pobreza que vem após a guerra e a impunidade garantem a sua continuidade.
Mas a violência não é apenas física. As políticas que põem em causa os serviços públicos, que deixam as mulheres sem acesso à saúde, à educação ou à proteção social, são também uma forma de violência estrutural, invisível e normalizada. Quando uma trabalhadora doméstica não tem direitos laborais, quando uma cuidadora trabalha sem remuneração ou reconhecimento, quando uma mulher migrante não tem acesso a serviços básicos, estamos perante violências muitas vezes esquecidas.
Democracia e direitos: uma equação frágil
Há uma ligação que raramente aparece nos debates públicos: a igualdade de género e a saúde das democracias caminham juntas. Onde os direitos das mulheres avançam, as sociedades tendem a ser mais justas, mais abertas e mais estáveis. Onde retrocedem, algo mais amplo está a falhar.
Não é coincidência. As estruturas que sustentam a desigualdade de género, como a concentração de poder, a hierarquia rígida e o silenciamento das vozes dissonantes, são as mesmas que alimentam sistemas políticos mais fechados e intolerantes. Por isso, quando o espaço cívico se estreita, quando a liberdade de expressão e de organização são limitadas, são frequentemente as mulheres e as pessoas em situações de vulnerabilidade que sentem esse estreitamento primeiro e com maior intensidade.
De facto, a igualdade não se conquista de uma vez para sempre. É um equilíbrio frágil, que exige instituições fortes, uma sociedade civil ativa e, acima de tudo, vontade política e ação concreta. Defender os direitos das mulheres é, por isso, também defender as condições que tornam qualquer progresso possível e duradouro.
O trabalho invisível que sustenta o mundo
Há uma economia paralela, não contabilizada no PIB, que mantém as sociedades a funcionar: o trabalho de cuidado. Cuidar de crianças, de idosos, de doentes, de lares – trabalho este feito maioritariamente por mulheres, em grande parte não remunerado, e sistematicamente desvalorizado.
A pandemia tornou isso visível por um breve momento. Depois, o mundo voltou a fechar os olhos a esta realidade, uma vez que muitas são as políticas continuam a desinvestir nos serviços públicos que aliviavam essa carga. O trabalho doméstico e de cuidado continua sem proteção laboral adequada. E as mulheres continuam a pagar o preço dessa invisibilidade – em tempo, em saúde, e em oportunidades perdidas.
Colocar os cuidados no centro das políticas públicas não é uma reivindicação menor. É uma transformação estrutural que mudaria profundamente a forma como organizamos as sociedades e distribuímos o poder.
Combater o pessimismo, com esperança no futuro
O pessimismo seria fácil. Mas seria também desistir de todas as mulheres que resistem – nas assembleias comunitárias, nas organizações de base, nas ruas de cidades de todos os continentes. O movimento feminista global, com toda a sua diversidade e complexidade, continua a ser uma das forças mais transformadoras do nosso tempo.
O que falta, mais do que vontade, é compromisso concreto: financiamento real e sustentado para organizações que trabalham a igualdade de género; políticas que cheguem a quem fica para trás; direitos sexuais e reprodutivos garantidos e sem retrocessos; e uma mudança cultural que reconheça, de uma vez por todas, que os direitos das mulheres não são uma concessão – são uma condição de qualquer sociedade que se queira justa.
Trinta anos depois de Pequim, o mundo ainda deve muito às mulheres. A questão não é se essa dívida existe. É se teremos, finalmente, a coragem de a saldar.