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20 nov 2025 Fonte: João José Fernandes, Oikos Temas: Financiamento para o Desenvolvimento, Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, Cooperação para o Desenvolvimento, Coerência das políticas, Alterações climáticas e ambiente, Ajuda Pública ao Desenvolvimento

Este artigo foi originalmente publicado na 28ª Edição da Revista da Plataforma Portuguesa das ONGD "Justiça Global: Caminhos para a Reforma da Arquitetura Financeira Internacional", em novembro de 2025. Leia ou faça download da revista aqui.

 

A Quarta Conferência Internacional sobre Financiamento para o Desenvolvimento em Sevilha produziu o Compromisso de Sevilha—um documento esperançoso, mas profundamente inadequado. Embora identifique as reformas necessárias para a ação climática, a sua natureza não vinculativa revela uma verdade incómoda: a arquitetura global de financiamento climático está subfinanciada e estruturalmente quebrada. 

Os números contam uma história pouco edificante. Os países em desenvolvimento necessitam de 4 biliões de dólares (notação portuguesa) adicionais anualmente para o desenvolvimento sustentável, dos quais 1,8 biliões são especificamente para ação climática. O compromisso histórico de 100 mil milhões de 2009 só foi cumprido em 2022, com dois anos de atraso que erodiu profundamente a confiança entre o Norte e o Sul Global. O novo compromisso prevê 300 mil milhões para 2035, mas já é visto com desconfiança (sobretudo porque, quando os 100 mil milhões foram finalmente alcançados, a qualidade do financiamento revelou um sistema concebido em torno das prioridades dos credores, não das necessidades dos recetores). 

Esta distorção manifesta-se na "armadilha da dívida climática", uma injustiça estrutural onde 68-71% do financiamento público é apresentado sob a forma de empréstimos, frequentemente a taxas de mercado, em vez de subsídios. O resultado é perverso: as nações mais vulneráveis ao clima aprofundam os seus encargos de dívida para financiar a adaptação a uma crise que não criaram. Atualmente, 43% dos países altamente endividados pagam mais aos credores externos do que recebem em financiamento climático. O sistema extrai mais do que fornece. 

Agravando esta crise está um profundo défice de transparência. Investigações sugerem que o Banco Mundial pode exagerar o seu financiamento climático em 40%—cerca de 7 mil milhões de dólares anualmente—através da manipulação de metodologias opacas. O sistema de "Marcadores do Rio" da OCDE permite que projetos com conexões muito ténues ao clima sejam contabilizados como financiamento climático, criando um "financiamento fantasma" que cumpre metas políticas no papel, mas falha no impacto real. 

O desequilíbrio temático do sistema revela ainda mais a sua lógica distorcida. A mitigação, particularmente projetos de energia renovável em larga escala que oferecem retornos financeiros, recebe a maior fatia do financiamento. As necessidades de adaptação, estimadas em 187-359 mil milhões de dólares anualmente para os países em desenvolvimento, recebem apenas uma fração deste valor. Quanto a Perdas e Danos—impactos climáticos além da capacidade de adaptação—o fundo estabelecido tem menos de mil milhões de dólares em compromissos face a necessidades anuais estimadas em 400 mil milhões. 

Alcançar a justiça climática requer ir além do consenso cauteloso de Sevilha para uma genuína mudança de paradigma construída sobre três pilares fundamentais. Primeiro, uma reforma institucional profunda que permita democratizar a governação e reorientar os mandatos dos Bancos Multilaterais de Desenvolvimento, como o Banco Mundial e os bancos regionais de desenvolvimento.  

Segundo, aumentos massivos no financiamento público são inegociáveis. Isto significa não apenas cumprir os compromissos de Ajuda Pública ao Desenvolvimento, há muito em atraso, mas também implementar fontes de receita inovadoras como taxas internacionais sobre emissões de navegação marítima, aviação ou transações financeiras.  

Terceiro, o capital privado deve ser orientado através de políticas públicas robustas, não meramente através da redução de risco. O caso da Ayana Renewable Power na Índia demonstra esta abordagem de modelação de mercado: ao incorporar princípios de transição justa—desenvolvimento de competências locais e envolvimento comunitário—nos mandatos de investimento desde o início, a empresa abordou simultaneamente constrangimentos empresariais enquanto criava benefícios sociais tangíveis.  

Ao nível das políticas públicas, o conceito de "transição justa" deve evoluir de uma preocupação periférica, meramente mencionada nos preâmbulos do Acordo de Paris, para se tornar no princípio organizador central de todas as decisões de financiamento climático. Para tal, torna-se imprescindível operacionalizar três dimensões de justiça que atualmente apenas existem na teoria. A justiça distributiva exige priorizar investimentos que criem trabalho digno e apoiem economias locais, contabilizando não apenas a redução de emissões, mas também os meios de subsistência destruídos quando, por exemplo, uma central a carvão encerra. 

A justiça processual insiste que as partes interessadas afetadas—trabalhadores, povos indígenas, comunidades locais—devem co-criar os caminhos de transição em vez de terem soluções impostas de cima para baixo. Parques eólicos de propriedade comunitária no Reino Unido e o setor de energia renovável da Índia demonstram como a incorporação de vozes locais na conceção de projetos gera, simultaneamente, energia limpa e sustentabilidade social. 

A justiça restaurativa reconhece as iniquidades históricas e o princípio das Responsabilidades Comuns, mas Diferenciadas. Este pilar exige que os países desenvolvidos forneçam financiamento reparador—subsídios e recursos altamente concessionais—para ajudar os países em desenvolvimento a construir resiliência sem incorrer em mais dívida. O sistema atual inverte perversamente esta obrigação moral, forçando os países mais vulneráveis às alterações climáticas a pedir dinheiro emprestado para se protegerem de uma crise que não criaram. 

Traduzir estes princípios em prática requer tornar obrigatórias as Avaliações de Impacto de Transição Justa para todas as decisões de financiamento climático, desenvolvendo métricas que meçam impactos no trabalho digno, igualdade de género, redução da pobreza e capacitação comunitária—indo muito além da simples contabilização de gases com efeito de estufa. 

O apelo para triplicar os empréstimos dos Bancos Multilaterais de Desenvolvimento até 2035, ecoado no Compromisso de Sevilha, fornece um impulso político crucial. No entanto, aproveitar esta oportunidade requer reformas profundas que abordem tanto a capacidade como a cultura destas instituições.  

A democratização da governação permanece a reforma mais desafiante, mas essencial. O sistema atual, onde o poder de voto no Fundo Monetário Internacional (FMI) e no Banco Mundial reflete estruturas económicas pós-Segunda Guerra Mundial em vez das realidades do século XXI, carece de legitimidade aos olhos dos países em desenvolvimento. Aumentar os votos básicos, reformar as fórmulas de quotas e acabar com a tradição anacrónica de monopólios de liderança americanos e europeus nestas instituições, sinalizaria um compromisso genuíno com o multilateralismo. 

Nenhum instrumento financeiro isolado pode colmatar a lacuna de biliões de dólares. As trocas de dívida por clima, exemplificadas pela transação de 1,6 mil milhões de dólares do Equador para a conservação marinha das Galápagos, demonstram um caminho promissor ao converter dívida comercial cara em empréstimos concessionais com poupanças direcionadas para ação climática. No entanto, as suas limitações são significativas: elevada complexidade, negociações prolongadas e impacto marginal nos encargos globais da dívida. Estas limitações acabam por significar que são mecanismos que tendem a funcionar melhor para países de rendimento médio com níveis de dívida geríveis. 

A narrativa "dos milhares de milhões aos biliões"—usando fundos públicos para reduzir o risco de investimentos e desbloquear capital privado—falhou amplamente na criação da escala e impacto necessários, particularmente para adaptação às alterações climáticas e em países vulneráveis. O financiamento misto (blended finance), quando adequadamente concebido, permanece valioso, mas requer salvaguardas rigorosas para evitar que arranjos mal estruturados privatizem lucros enquanto socializam riscos para os governos dos países em desenvolvimento. 

Os quadros de política são, na realidade, as ferramentas mais poderosas para orientar o capital privado. Metas claras de energia renovável, preços de carbono estáveis, licenciamento simplificado e taxonomias verdes transparentes criam e modelam mercados em vez de meramente corrigir falhas.  

O Compromisso de Sevilha representa a arte da "diplomacia do possível"—encontrar consenso entre 193 nações num cenário geopolítico fraturado. O modelo para a transformação existe: governação democratizada, investimento público massivo, fluxos de receita inovadores e capital privado orientado através de políticas robustas. O conhecimento técnico está disponível. O que permanece incerto é a vontade política para o implementar. 

A crise climática não esperará por um consenso perfeito. Exige que coligações de vontades ajam decisivamente, criando efeitos de demonstração que mudem as normas globais. A escolha que enfrenta a comunidade internacional é clara: transformar a arquitetura financeira agora, ou vê-la colapsar sob o peso da sua própria inadequação à medida que os impactos climáticos sobrecarregam a capacidade de resposta do sistema. Justiça adiada é justiça negada, e no contexto das alterações climáticas, o atraso mede-se não em anos abstratos, mas em vidas concretas, meios de subsistência destruídos e futuros perdidos. 

O tempo para o compromisso passou; a era da transformação deve começar agora. 

 

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