18 dez 2025 Fonte: Anne Bocandé, Diretora Editorial, e Antoine Bernard, Diretor de Advocacy, Repórteres Sem Fronteiras Temas: Agenda 2030, Paz e gestão de Conflitos, Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, Direitos Humanos, Comunicação, Cidadania e Participação, Advocacia Social e Política
No passado dia 2 de novembro, assinalou-se o Dia Internacional para o Fim da Impunidade dos Crimes contra Jornalistas, uma data instituída pela Organização das Nações Unidas em 2013, com o objetivo de combater a violência e o silenciamento de jornalistas, em especial a falta de justiça relativamente aos crimes cometidos. Neste contexto, a Plataforma Portuguesa das ONGD convidou a Repórteres Sem Fronteiras para colaborar com a sua newsletter, dando-nos a conhecer os mais recentes dados sobre os ataques aos jornalistas e à liberdade de imprensa em todo o mundo.
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Os jornalistas não morrem — são mortos. E, em 2025, fazer jornalismo continua a ser uma atividade de alto risco. O balanço global de abusos cometidos contra jornalistas nos últimos doze meses foi particularmente pesado. Sessenta e sete jornalistas foram mortos em consequência do seu trabalho, segundo dados da Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Quase metade deles, 43%, perdeu a vida em Gaza, às mãos das forças armadas israelitas. Na Ucrânia, o exército russo continua a visar repórteres nacionais e internacionais, enquanto o Sudão também se afirma como uma das zonas de guerra mais mortíferas para a profissão.
No México, o crime organizado é responsável por um alarmante recrudescimento dos assassinatos de jornalistas este ano. Com nove jornalistas mortos, 2025 foi o ano mais mortífero dos últimos três no México, que é agora o segundo país mais perigoso do mundo para os jornalistas. A região da América Latina representa quase um quarto (24%) dos jornalistas mortos a nível mundial.
Os jornalistas estão mais em perigo nos seus próprios países. Apenas dois jornalistas estrangeiros foram mortos no estrangeiro: o fotojornalista francês Antoni Lallican, morto por um ataque de drone russo na Ucrânia, e o jornalista salvadorenho Javier Hércules, assassinado nas Honduras. Todos os outros jornalistas foram mortos enquanto cobriam a atualidade nos seus países de origem, frequentemente sem proteção e num contexto de quase total indiferença.
A morte é a forma mais visível de repressão — mas está longe de ser a única. Atualmente, 503 jornalistas encontram-se arbitrariamente detidos em todo o mundo. A China continua a ser a maior prisão para jornalistas, com 121 profissionais atrás das grades. A Rússia, com 48 jornalistas detidos, entrou para o top três, à frente de Myanmar (47), e detém o recorde do maior número de jornalistas estrangeiros presos: 26 jornalistas ucranianos. A estas detenções soma-se a tragédia dos desaparecimentos. Um ano após a queda de Bashar al-Assad, muitos repórteres detidos ou capturados sob o seu regime continuam desaparecidos. Por este motivo, a Síria permanece o país com o maior número de jornalistas desaparecidos no mundo, representando mais de um quarto do total global.
Estes ataques ao jornalismo não são aleatórios nem incidentes isolados. Os jornalistas não morrem apenas — são mortos. Os abusos contra os profissionais dos media são o resultado de ações deliberadas levadas a cabo por indivíduos identificáveis. Para assinalar o Dia Internacional para Pôr Fim à Impunidade dos Crimes contra Jornalistas, a RSF compilou uma lista de cerca de 30 “predadores da liberdade de imprensa”. Estes predadores matam, censuram, prendem e atacam jornalistas. Asfixiam redações, denigrem a profissão, manipulam o sistema judicial e imitam os códigos do jornalismo profissional para promover a sua desinformação e propaganda. Em 2025, os ataques aos media caracterizaram-se por uma diversificação constante dos métodos de repressão, revelando a capacidade dos inimigos da imprensa para se adaptarem. Mas, embora os meios variem, o objetivo mantém-se o mesmo: silenciar os jornalistas. Ao expor os seus perfis, a RSF recorda-nos que a impunidade não é inevitável e que aqueles que atropelam o direito à informação fiável devem ser nomeados e responsabilizados. A violência continuará enquanto os autores destes crimes contra jornalistas não forem identificados, julgados e punidos. Proteger os jornalistas é proteger o direito fundamental de todos os cidadãos a uma informação livre, independente e fiável.
Anne Bocandé, Diretora Editorial, e Antoine Bernard, Diretor de Incidência, Repórteres Sem Fronteiras.