24 set 2026 Fonte: Nuno Tavares - Gestor de projetos na área da educação da FEC na Guiné-Bissau; Vanêzio Francisco - Técnico de educação da FEC em Angola Temas: Advocacia Social e Política, Ajuda Pública ao Desenvolvimento, Cooperação para o Desenvolvimento, Direitos Humanos, Educação e Formação, Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, Pobreza e Desigualdades, Agenda 2030
Aulas na Escola Primária Completa Manga Mascarenhas, reconstruída pelo Consórcio Somos Moçambique (FEC, FGS, VIDA) após o Ciclone Idai, em 2019. Cidade da Beira, Moçambique, 2022.
Quando a educação se torna um alvo
Instituído pela ONU em 2020, o Dia Internacional para Proteger a Educação de Ataques, 9 de setembro, lembra que o direito de aprender deve prevalecer em qualquer circunstância. Como disse Nelson Mandela, a educação é a arma mais poderosa para mudar o mundo, configurando-se como o alicerce fundamental para a paz e a justiça social.
Porém, o relatório Education Under Attack 2026 revela um cenário alarmante: entre 2024 e 2025, a GCPEA registou pelo menos 9.259 ataques à educação e casos de utilização militar de instituições educativas, um aumento superior a 50% face a 2022–2023, afetando mais de 10.600 estudantes e profissionais do setor.
Quando uma escola é atacada, interrompem-se aprendizagens e aumentam os riscos de abandono escolar precoce, trabalho infantil ou recrutamento por grupos armados. As deslocações forçadas de populações à procura de refúgio corroem o tecido social, gerando um profundo clima de medo. A escola deixa de ser um espaço de proteção e torna-se um símbolo de vulnerabilidade.
Diferentes geografias, diferentes ameaças
Os ataques à educação não têm fronteiras nem assumem a mesma forma em todas as geografias. Da Ucrânia a Gaza, do Sudão a Moçambique, e em tantos conflitos pouco presentes no espaço mediático, escolas são destruídas ou ocupadas, alunos e profissionais são mortos, feridos ou deslocados e comunidades inteiras perdem o acesso a espaços essenciais de proteção.
Mas as ameaças à educação não se esgotam nos conflitos armados. As desigualdades estruturais no acesso, as fragilidades dos sistemas educativos, a precariedade das infraestruturas, a falta de valorização dos docentes e as crises ambientais e socioeconómicas condicionam este direito fundamental.
No dia a dia das comunidades educativas, a violência assume igualmente diferentes expressões: o bullying e o cyberbullying, a discriminação, o isolamento, os discursos de ódio e a radicalização digital. Casos extremos de violência escolar, como os perpetrados por alunos ou ex-alunos nos Estados Unidos e noutros países, evidenciam problemas complexos, nos quais fatores como a saúde mental, o bem-estar, o isolamento ou as redes sociais podem assumir diferentes níveis de relevância.
Comparar contextos não significa equipará-los. Um ataque em contexto de guerra, uma catástrofe natural ou um episódio de violência numa escola têm causas distintas, mas convergem num ponto crítico: comprometem o direito de aprender, ensinar e viver em liberdade e segurança.
Proteger é também prevenir
Perante ameaças tão diversas, proteger a educação exige uma clara aposta na prevenção. Por isso, importa fortalecer os sistemas educativos, capacitar professores e lideranças, envolver famílias e comunidades, promover relações de confiança e pertença, prevenir a discriminação, a violência e o bullying e desenvolver a literacia digital, o pensamento crítico e o bem-estar.
A escola constrói-se e fortalece-se com todos: alunos, professores, lideranças, famílias, comunidades e instituições. Não pode ser entendida meramente como um serviço, mas como um espaço coletivo de participação, responsabilidade e pertença. Uma escola protegida é uma comunidade capaz de acolher, incluir, escutar, prevenir e responder.
O que a experiência da FEC nos mostra
Enquanto Organização Não Governamental para o Desenvolvimento, a experiência da FEC demonstra que proteger a educação exige respostas adaptadas a cada realidade local. Na Guiné-Bissau, a formação inicial e contínua de professores em Educação para a Cidadania e Inclusão contribui para a promoção de ambientes seguros, capacitando crianças e jovens para participarem na construção de comunidades mais inclusivas e resilientes.
Em Angola, a capacitação dos elencos diretivos em Organização e Administração Escolar reforça a liderança institucional face aos desafios do acesso, da permanência e da qualidade de ensino.
Em Moçambique, após o impacto devastador do ciclone Idai em Sofala, a reconstrução de salas de aula e infraestruturas de saneamento devolveu às crianças condições dignas de aprendizagem e às comunidades importantes pontos de referência.
Estas intervenções evidenciam que salvaguardar a educação envolve fortalecer as pessoas e as instituições locais, garantindo as condições necessárias para que cada criança permaneça na escola em liberdade e segurança.
Garantir o presente, construir o futuro
As respostas exigem adaptação a cada contexto, mas o princípio é comum e inegociável: proteger a educação é defender a dignidade humana. Como sublinhou o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, a educação é um direito humano fundamental e um trampolim para maiores oportunidades, dignidade e paz.
Defender a educação é, por isso, uma responsabilidade coletiva que exige investimento contínuo e resiliência antes, durante e após as crises. Garantir que uma criança aprende hoje em liberdade, segurança e dignidade é criar a base para que, amanhã, ela e a sua comunidade possam construir um futuro mais justo, resiliente, inclusivo e humano.
Nuno Tavares
Gestor de projetos na área da educação da FEC na Guiné-Bissau
Vanêzio Francisco
Técnico de educação da FEC em Angola