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26 fev 2026 Fonte: Ana Paula Costa, Presidente da Casa do Brasil de Lisboa, Doutora em Ciência Política Temas: Migrações e Refugiados, Igualdade de Género, Direitos Humanos

O legado das opressões históricas continua a moldar as experiências das mulheres negras em Portugal, sejam elas portuguesas ou estrangeiras, traduzindo-se em desigualdades estruturais persistentes e numa clara sub-representação em posições de poder, quer na política, quer nas universidades, nos media ou em cargos de direção. Em 2025, um estudo sobre o Racismo Quotidiano em Portugal1, produzido pela Universidade Lusófona, destacava que 97% das pessoas inquiridas já tinham sido alvo direto de racismo.

A maioria das pessoas negras que participaram no estudo relata experiências recorrentes de agressão, invalidação e descredibilização, muitas vezes expressas através de gestos subtis, como olhares de superioridade, presunções de ignorância ou tratamento “como exceção”, que cumprem uma função disciplinadora e hierarquizante.

Anteriormente, em 2023, o Instituto Nacional de Estatística (INE) realizou o Inquérito às Condições de Vida, Origens e Trajetórias da População Residente (ICOT)2, cujos resultados evidenciam que a discriminação em Portugal afeta milhões de pessoas e incide desproporcionalmente sobre grupos racializados, nomeadamente pessoas ciganas, negras e imigrantes. O estudo demonstrou ainda que este fenómeno se manifesta de forma estrutural em áreas fundamentais da vida social, como o trabalho, a educação, a saúde e a habitação.

De acordo com o inquérito do INE, mais de 1,2 milhões de pessoas em Portugal já sofreram discriminação. Entre estas, 40,1% identificam a cor da pele, o território de origem ou o grupo étnico como principal motivo. Este diagnóstico não é animador, mas desconstrói facilmente o argumento de que atos racistas são casos isolados em Portugal: o racismo não é uma exceção, mas parte do quotidiano, podendo manifestar-se por meio de invalidações simbólicas e silenciosas, e não apenas através de agressões diretas.

Por seu turno, a interseccionalidade entre raça (um conceito sociológico) e género intensifica os obstáculos enfrentados pelas mulheres negras na sociedade portuguesa, agravando a marginalização das suas vozes, limitando a sua plena participação cívica e institucional e impedindo o seu reconhecimento enquanto sujeitos de direitos. Nesse sentido, o quadro teórico dos dispositivos de racialidade3, desenvolvido por Sueli Carneiro, ajuda a compreender como o racismo opera enquanto instrumento de manutenção da hegemonia branca (ou da branquitude), através da desumanização das pessoas negras.

A construção das pessoas negras como “não-seres” funciona como mecanismo de reafirmação da superioridade da branquitude, relegando as vozes negras para as margens da sociedade e do espaço público (Carneiro, 2023). Dessa forma, os dispositivos de racialidade configuram um conjunto articulado de práticas, discursos e instituições que produzem e reproduzem a racialização a partir de uma perspetiva ontológica, estabelecendo a cor da pele como critério implícito para definir quem é plenamente reconhecido como humano e quem é posicionado como “outro”. Nesta perspetiva, a construção da pessoa negra como “não-ser”, figura historicamente animalizada ou desumanizada, constitui a condição para a afirmação do “ser” branco enquanto sujeito universal e sujeito de direitos. É pela criação dessa alteridade estigmatizada que a branquitude se consolida como norma silenciosa e padrão de referência, perpetuando o racismo.

Ora, a desumanização das pessoas negras não se reduz a um preconceito individual ou a uma mera construção social, antes, estrutura-se como um mecanismo sistémico que produz e reproduz desigualdades no acesso a recursos, oportunidades e representação. Em Portugal, esta dinâmica manifesta-se, por exemplo, na menor presença de mulheres negras em cargos políticos, na invisibilidade estatística das desigualdades raciais e na persistência de estereótipos associados às populações afrodescendentes e estrangeiras.

Assim, o dispositivo de racialidade traduz-se na negação ou limitação de direitos, na invisibilização de problemas, como o impacto diferenciado da precariedade laboral ou da violência institucional, e na imposição de estigmas e estereótipos. Estas estratégias reforçam barreiras estruturais à mobilidade social e moldam a subjetividade e a realidade social a partir do apagamento simbólico da humanidade da população negra. Dessa forma, o racismo continua a operar como mecanismo de legitimação de privilégios simbólicos e materiais, servindo de instrumento de dominação e exclusão social.

Por exemplo, em 2025, quando a deputada Eva Cruzeiro, portuguesa, negra, nascida em Portugal e eleita para a Assembleia da República, foi mandada “voltar para a sua terra4” no exercício do seu mandato, o que estava em causa ultrapassou o insulto individual de um deputado da direita radical populista. Esse ato evidencia que a sua negritude é mobilizada como marcador de alteridade permanente e revela que, no imaginário social, a identidade nacional do “ser português” continua racializada: o “português legítimo” é implicitamente branco. Nesse episódio perverso, a deputada foi simbolicamente deslocada da condição de sujeito político para a de estrangeira intrusa, mesmo estando no mais alto espaço de representação democrática para o qual foi legitimamente eleita.

É factual que a intersecção entre racismo e patriarcado intensifica os desafios enfrentados pelas mulheres negras em Portugal, que se encontram numa posição particularmente vulnerável. Não é novo que, desde cedo, o comboio da linha de Sintra venha para Lisboa cheio de mulheres negras, muitas afrodescendentes e brasileiras, que trabalham na limpeza e nos serviços. O trabalho que realizam é essencial para a organização e a manutenção da cidade, mas continua a ser invisibilizado, enquanto no debate público e na formulação de políticas públicas, persiste a desvalorização das suas experiências, perspetivas e das violências que vivenciam diariamente.

Isto é, o sistema permanece, em larga medida, estruturado de forma a que as vozes e experiências das mulheres negras sejam deslegitimadas ou tratadas como marginais, o que se reflete na sua reduzida representação política e na ausência de respostas específicas às suas necessidades. Tal invisibilidade revela um paradoxo estrutural: as mulheres negras que vivem na linha de Sintra sustentam materialmente o espaço urbano, mas encontram-se marginalizadas dos espaços de decisão onde se definem as políticas que regulam as suas próprias condições de vida e trabalho. Pode uma democracia admitir tamanha desigualdade?

Numa democracia não se pode ignorar a existência de uma divisão racial e de género do trabalho, na qual mulheres negras são empurradas para funções essenciais, mas socialmente desvalorizadas e precarizadas. Além disso, não se pode ignorar que a construção histórica da pessoa negra como “não plenamente humana” repercute-se em políticas públicas que desconsideram as especificidades vividas por mulheres negras, perpetuando ciclos de desigualdade no acesso à cidade, bem como de racismo e violência de género.

De facto, as mulheres negras expõem de forma particularmente visível as contradições de uma sociedade que se pensa igualitária, mas que permanece atravessada pelo racismo e pelo patriarcado. Não raro, as suas vozes, quando ecoam, se conseguem ecoar, incomodam precisamente porque desvelam desigualdades profundas e questionam hierarquias naturalizadas. Tornar visíveis desigualdades implica reconhecer responsabilidade coletiva. Contudo, quando se trata de corpos desumanizados, até desigualdades evidentes são questionadas e socialmente justificadas: eis mais uma das perversidades do racismo.

Reconhecer o dispositivo perverso do racismo exige rever práticas, estruturas, discursos e privilégios, um processo que seguramente não acontecerá sem tensões e resistência dos sistemas de opressão. Em primeiro lugar, há uma dimensão simbólica no ato de tornar visíveis as desigualdades produzidas pelo racismo: a sociedade portuguesa construiu-se historicamente sob narrativas de excecionalismo e de suposta convivência harmoniosa, frequentemente associadas ao luso-tropicalismo. Quando mulheres negras tomam a palavra e relatam experiências de discriminação no mercado de trabalho, na escola, no acesso à habitação ou na relação com instituições públicas, essas narrativas confrontam diretamente essa autoimagem nacional.

Nesse sentido, o incómodo e as tensões emergem porque a denúncia do racismo estrutural rompe com a ideia de neutralidade e igualdade formal, expondo fraturas que muitos preferem considerar residuais ou inexistentes, justamente para evitar o reconhecimento de uma responsabilidade coletiva na construção de uma sociedade igualitária. Mas esconder questões fraturantes debaixo do tapete não as torna menos fraturantes, pelo contrário, o racismo não deixará de existir enquanto não se encare as suas mazelas de frente.

Em segundo lugar, questionar hierarquias naturalizadas significa desafiar a distribuição desigual de poder que organiza a sociedade. E, nas sociedades ocidentais, o poder é frequentemente representado na figura do homem branco europeu. As mulheres negras, ao reivindicarem representação, reconhecimento e redistribuição, não pedem apenas inclusão simbólica: exigem transformação estrutural. Isso implica disputar lugares de decisão, redefinir prioridades políticas e rever critérios de legitimidade, um movimento que ameaça privilégios historicamente acumulados. Assim, o incómodo e as tensões no combate ao racismo não decorrem apenas do conteúdo das reivindicações, mas do facto de as mulheres negras colocarem em causa quem decide, quem representa e quem é considerado sujeito político legítimo.

Em terceiro lugar, há uma dimensão epistemológica, visto que as mulheres negras não apenas denunciam desigualdades, mas produzem também conhecimento a partir das suas experiências e vivências. A título de exemplo, as mulheres afrodescendentes que vivem no bairro da Cova da Moura produzem conhecimento a partir das suas formas de estar e de se relacionar com a vida no bairro, restabelecendo o sentido dos laços sociais e da comunidade. Esse conhecimento emerge das experiências vividas, das práticas quotidianas, das formas de organização social e das interpretações que constroem sobre a sua própria realidade.

Mesmo estigmatizadas, empurradas para a margem e sujeitas a violência física e simbólica, as mulheres da Cova da Moura, juntamente com os demais moradores, constroem estratégias de sobrevivência e produzem um rico conhecimento sobre como resistir à marginalização e criar pertença. De igual modo, mulheres negras brasileiras, no processo migratório, muitas vezes invisibilizadas, organizam redes de apoio nas quais linguagem, formas de educar, celebrar e cuidar constituem saberes transmitidos entre gerações e mantidos na diáspora.

Ora, o combate ao racismo através da produção de conhecimento torna-se incómodo porque desloca o lugar tradicional de quem é reconhecido como produtor legítimo de saber. Quando mulheres negras expõem como o racismo e o patriarcado estruturam o quotidiano, revelam que aquilo que é frequentemente apresentado como “normal” ou “natural” é, na verdade, resultado de processos históricos de hierarquização. Uma vez que o ego da branquitude e do patriarcado é frágil, desnaturalizar estruturas de dominação com base na raça e no sexo desestabiliza o senso comum e desloca o centro da produção de conhecimento.

Contudo, o incómodo ou a resistência face ao papel das mulheres negras também é sintoma da força transformadora dessas vozes. Nesse processo de desumanização sempre houve resistência. Lélia González5 lembra-nos que o lugar em que nos situamos determina a nossa interpretação sobre o racismo e o sexismo, por isso, a experiência das mulheres negras é fator determinante para a compreensão, enquanto sociedade, da questão racial.

Igualdade, dignidade, liberdade e justiça não se sustentam apenas como princípios abstratos, mas como práticas sociais que dependem do reconhecimento mútuo. As mulheres negras ocupam um lugar particularmente revelador de desigualdades, pois a intersecção entre raça e género expõe as contradições de uma sociedade que se afirma igualitária, mas que mantém hierarquias racializadas e patriarcais profundamente enraizadas.

Se o racismo e o patriarcado são sistemas de opressão, então não se tratam apenas de atitudes individuais, mas de engrenagens estruturais, institucionais e culturais que beneficiam uns e prejudicam outros. Não naturalizar a desumanização e denunciar esse processo constitui uma responsabilidade coletiva que deveria configurar um pacto civilizatório. Um pacto que possibilita a existência plena enquanto ser.

Conceição Evaristo ainda vive para nos lembrar que “combinaram de nos matar, mas a gente combinamos de não morrer”.

 

Artigo de Ana Paula Costa

Doutora em Ciência Política, com especialização em Políticas Públicas, pela Universidade Nova de Lisboa

Investigadora no Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI-NOVA)

Presidente da Casa do Brasil de Lisboa.

 

 

1 Booklet Deletar e Começar de Novo, produzido pelo Projeto AGRRIN da Universidade Lusófona. https://agrrin.net/wp-content/uploads/2026/01/pdf_deletar-e-comecar-de-novo_-visualizacao-pagina-aberta.pdf

2 Inquérito às Condições Origens e Trajetórias da População Residente em Portugal (ICOT). Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial. https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_destaques&DESTAQUESdest_boui=718322656&%20DESTAQUESmodo=2

Carneiro, S. (2023). Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não ser como fundamento do ser. Editora Schwarcz-Companhia das Letras.

4 “Gritou-me: vai para a tua terra.” Deputada Eva Cruzeiro (PS) pede abertura de inquérito a Filipe Melo (Chega) por racismo e xenofobia. https://www.dn.pt/pol%C3%ADtica/gritou-me-vai-para-a-tua-terra-deputada-eva-carneiro-ps-pede-abertura-de-inqurito-a-filipe-melo-chega-por-racismo-e-xenofobia

5 Para compreender a “Améfrica” e o “pretuguês”  Lélia Gonzalez  31 de outubro de 1980: https://www.marxists.org/portugues/gonzalez/1980/10/31.htm

 

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