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05 dez 2025 Fonte: Grupo de Trabalho de Recursos Humanos e Voluntariado da Plataforma Portuguesa das ONGD Temas: Cidadania e Participação, Cooperação para o Desenvolvimento, Sociedade Civil, Ética

O Dia Internacional do Voluntário foi instituído pela Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) em 1985 e assinala-se a 5 de dezembro. Nesta data celebra-se a força transformadora de cidadãos e cidadãs que, movidos por sentido cívico e responsabilidade social, dedicam de forma livre e altruísta, o seu tempo e as suas competências a causas que promovem o desenvolvimento das pessoas e das comunidades com quem trabalham.

Por ocasião desta comemoração, o Grupo de Trabalho de Recursos Humanos e de Voluntariado (GT RHV) da Plataforma Portuguesa das ONGD, reflete no presente artigo sobre o voluntariado internacional, partindo da questão da intenção que move os voluntários, para a necessidade de formação dos mesmos e a sua preparação adequada, bem como a imprescindibilidade de trabalho conjunto com as pessoas e comunidades beneficiárias.

O Voluntariado Internacional para o Desenvolvimento é uma forma de voluntariado com características específicas: a duração (superior a 6 meses), o nível de preparação do voluntário, a diferenciação do seu conhecimento e a sua capacidade de integração nas comunidades locais. Tem como base as competências dos voluntários para trabalhar com as comunidades e apoiar as capacidades próprias das pessoas, para melhorar a qualidade de vida e reduzir a pobreza e a desigualdade, de acordo com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. O voluntariado em atividades de desenvolvimento deve ser responsável e contribuir para uma transformação social.

Nas últimas décadas, têm surgido diferentes “estilos” de voluntariado internacional consoante o envolvimento dos voluntários. Parece existir uma preferência pelo voluntariado de curta / média duração (1 a 8 semanas / 3 a 6 meses), que coexiste com uma tendência para o voluntariado ocasional e recreativo, havendo também voluntariado realizado online.

O voluntariado de curta duração (VCD) é a forma mais comum nos modelos contemporâneos de voluntariado e apresenta-se com diversidade de práticas consoante o seu objetivo. Assim, há programas com foco no voluntário como beneficiário e que visam uma “aprendizagem global”, e outros que se centram na comunidade/nas organizações locais, mas, nem sempre integrados em projetos de desenvolvimento de forma organizada e responsável.

Nas últimas décadas, os objetivos e estratégias da cooperação internacional para o desenvolvimento foram-se modificando e hoje, há novos desafios e as formas de atuar são diferentes e muito diversas.

Neste contexto, o trabalho das ONGD ganha relevo pela sua integração nas comunidades, dinamização da participação ativa da população local e promoção da apropriação da capacitação pela comunidade.

A vivência de práticas de voluntariado de curta duração bem-intencionado, nos países onde os voluntários atuam, motivado por valores humanitários, mas num modelo não adequado aos princípios da cooperação internacional para o desenvolvimento sustentável, originou “inquietações” e motivou a partilha dessas preocupações entre ONGD associadas da Plataforma, na Oficina “Para Além da intenção-ação responsável”, organizada pelo  GT RHV da Plataforma, em colaboração com a Sol Sem Fronteiras, e com a participação da Profª Vanessa Marcos da Universidade Católica Portuguesa do Porto.

As questões levantadas ao longo da oficina foram várias e diversas, entre elas:

  • O tempo de duração do voluntariado é determinante para a eficácia e impacto da ação?
  • Os programas de voluntariado são desenhados em conjunto com as comunidades locais?
  • Os voluntários têm acompanhamento e são integrados na comunidade?
  • A formação dos voluntários é uma prioridade nas ONGD?
  • E a gestão dos voluntários, como é planeada?
  • Quais são os impactos concretos do VCD nas comunidades?

Diferentes respostas surgiram, mediante as características de cada uma das organizações presentes, bem como a sua experiência nos países onde atuam, mas foi de entendimento comum que é necessário um trabalho conjunto para definir conceitos, princípios orientadores e um conjunto de boas práticas, para as atividades de voluntariado internacional para o desenvolvimento.

Na dinâmica dos grupos de trabalho que completaram a Oficina, a reflexão foi orientada para a seleção e formação de voluntários; o impacto do VCD não estruturado e a coordenação e participação dos beneficiários.

Da reflexão realizada, foram tecidas algumas considerações finais relevantes para fortalecer o impacto deste tipo de voluntariado, entre as quais se destaca:

  • O princípio de que “toda a gente tem sempre algo de bom a oferecer ao outro”, neste contexto, é falacioso;
  • É essencial que a organização tenha critérios de seleção dos voluntários baseados nos valores que promove e nas ações de intervenção que desenvolve e ponderação na avaliação das motivações, expectativas e nas suas competências;
  • A formação inicial e contínua é imprescindível. É fundamental que os voluntários conheçam e estejam integrados na organização promotora e na organização que os acolhe, informados no âmbito da ação de intervenção e capacitados para as atividades que vão desenvolver, assim como do contexto sociocultural do país e das comunidades com as quais vão atuar.
  • Os beneficiários devem ser envolvidos desde o primeiro momento, da conceção ao desenho e implementação do projeto/acolhimento do programa de voluntariado, assim como de todos os parceiros, entidades intervenientes na ação.

 

As principais conclusões da oficina vão ao encontro de estudos feitos sobre o VCD, contudo sublinhamos a importância de se ter em consideração que as ações de voluntariado não podem estar desenhadas apenas para dar uma boa experiência aos voluntários (autocentradas), sendo o fator mais importante destes projetos os seus beneficiários e o impacto nas comunidades locais.

- Olhar para dentro e autoavaliar-nos: não ficarmos circunscritos em modelos tradicionais ou que se tornaram confortáveis para as organizações;
- Adaptar-nos continuamente à mutação dos contextos com os quais procuramos trabalhar;
- Avaliar o impacto ambiental deste tipo de intervenção, analisando se faz sentido/ compensa a pegada ecológica para projetos de curta duração (exemplo: viagens);
- Grupos informais e ações ad-hoc são os mais nefastos, porque não promovem uma ação concertada com quem se encontra no território. Isto pode resultar numa fragilização dos parceiros locais e contributo negativo para a credibilidade das ONGD, da própria cooperação e do voluntariado internacional, assim como a criação de disrupções no trabalho de todos aqueles que lá intervêm;
- Criar ou melhorar as ferramentas e procedimentos de seleção e formação criteriosa dos voluntários;
- Estar atento à linguagem que se deve usar para trabalhar estes temas, de forma a salvaguardar as diferentes partes interessadas.

Sabemos que o voluntariado de curta duração teve um papel relevante na cooperação, mas devido ao atual contexto mundial é importante repensar e adaptar a forma de continuar a garantir os princípios da solidariedade, justiça social, equidade, respeito pelos direitos humanos e a dignidade das comunidades com quem trabalhamos.  Para salvaguardar as questões da dignidade humana, da ética das ações não basta a intenção, é sempre imperativa uma ação responsável.


Bibliografia

Benjamin, J. (2010) - Capacity Building Contributions of Short-Term International Volunteers-Journal of Community Pratice 19(2): 120-37.
https://www.researchgate.net/publication/236962039_Capacity_Building_Contributions_of_Short-Term_International_Volunteers

Benjamin, J.  (2020) - International Volunteering- In book: International Encyclopedia of Civil Society.
https://www.researchgate.net/publication/342820753_International_Volunteering

Duarte, M. J. P. (2024). Voluntariados internacionais de curta duração [Dissertação de Mestrado, ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. 
https://repositorio.iscte-iul.pt/handle/10071/33434

Howard, A.  et al. (2021) Participant reflections on short-term international volunteering: Benefits, concerns, and perspective change- Journal of Human Behavior in the Social Environment 32(2):1-24.
https://www.researchgate.net/publication/354255326_Participant_reflections_on_short-term_international_volunteeringBenefits_concerns_and_perspective_change

 

 

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