17 jul 2026 Fonte: CIDAC - Centro De Intervenção Para O Desenvolvimento Amílcar Cabral Temas: Sociedade Civil, Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, Educação para o Desenvolvimento e a Cidadania Global, Economia solidária / alternativa / Microcrédito, Direitos Humanos, Cooperação para o Desenvolvimento, Consumo responsável / Comércio Justo, Advocacia Social e Política, Cidadania e Participação
Artigo de CIDAC - Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral
Em setembro de 2023, escrevíamos na Revista da Plataforma Portuguesa das ONGD um texto intitulado: Procurando Outras Economias. Passados quase 3 anos, será que as encontrámos? Não temos bem certeza. Certeza temos de ter encontrado pessoas, coletivos, organizações empenhadas em construir, em conjunto, formas críticas de olhar e pensar o sistema económico dominante, e também formas diferentes de fazer economia em muitas geografias.
Cada um dos 9 números da revista Outras Economias constituiu-se como uma plataforma de trabalho colaborativo, de descoberta e diálogo, em primeiro lugar com os coletivos, associações e pessoas que compuseram o conselho editorial: Graal, Rede para o Decrescimento, Climáximo, Oficina Global, CooLabora, Plataforma TROCA, Leonor Valfigueira e Pedro Horta e FEC. Através desse trabalho, a revista foi ganhando muitas e variadas vozes, tentando chegar o mais possível aos suis globais. Entre números, as colaborações estenderam-se às pessoas e organizações com quem organizámos o que chamamos de atividades de animação da revista: círculos de leitura, lançamentos e apresentações, oficinas, formações de professores/as e educadores/as. Fomos à “casa” de outras entidades, em Lisboa, na periferia e mesmo fora de Lisboa, passando por Coimbra, Porto, Beja e – várias vezes! - pela Covilhã. O formato online possibilitou também chegar a pessoas em vários lugares do mundo.
Começámos, no primeiro número, por nomear e explicitar algumas formas de olhar para a economia que vão além da ciência económica e que atravessam a revista, desde a economia feminista aos comuns, e por trazer instrumentos para destrinçar o sistema económico, que estiveram patentes em todos os números. Passámos por temas muito atuais, como a justiça climática, os acordos de comércio livre, a inovação e a tecnologia, e por outros mais esquecidos, como a dívida, o (neo)colonialismo, o cooperativismo, e por temas do nosso quotidiano, mas com a lente particular da sua interrelação com o sistema económico, como a agricultura e a educação.
Em cada número, num trabalho editorial de diálogo com as pessoas a quem pedimos contributos – que passa/ram por artigos, vídeos, podcasts até à banda desenhada – procurou-se problematizar cada tema, dando diferentes prismas – críticos -, trazer exemplos de lutas e movimentos que agem sobre eles, bem como iniciativas alternativas concretas. Por exemplo, falámos de agricultura (super)intensiva no Alentejo mas também de formas de agricultura que respeitam seres humanos e o ambiente.
Pode não parecer, mas a Outras Economias é um projeto – e um processo – de Educação para o Desenvolvimento (ED). E alguns dos aspetos constituintes da ED, o trabalho colaborativo, a problematização crítica, a apresentação de formas de agir, estão patentes nela. A dimensão relativa às inter/dependências entre comunidades, países, regiões, sejam elas económicas, políticas, ecológicas, culturais, nem sempre esteve presente. Tentámos trazer esse olhar, mas sabemos que é uma dimensão a continuar a trabalhar.
Outra dimensão fundamental é a pedagógica. Num projeto editorial, ela passa pela expressão – escrita ou falada. O diálogo com as pessoas que contribuíram para a revista tem sido importante para que os conteúdos sejam didáticos, sem abdicar da complexidade que qualquer análise crítica exige.
Ainda do ponto de vista educativo, cada número conta com propostas pedagógicas, que podem ser implementadas em qualquer contexto educativo e que convidam à exploração das temáticas tratadas. Estas propostas encontram-se compiladas, na íntegra, neste documento. E incorporam algumas atividades elaboradas por professores/as que participaram numa das ações de formação organizadas em torno da revista.
A Outras Economias tem representado um processo de múltiplas aprendizagens. Refletimos sobre elas e sobre alguns dos desafios encontrados, na última edição a propósito de… educação. Os ecos sobre o papel que a revista tem tido na democratização do acesso ao conhecimento económico que nos chegam são amplamente positivos. Sabemos que é necessário recolher mais vozes, de perto e de longe, e continuar a mobilizar pessoas para as atividades de animação, mas sobretudo para que se animem a juntar-se – ou a criar – alternativas sócioeconómicas. E isso só é possível em conjunto!
Gostaríamos que este projeto contribuísse para que a economia entre nas preocupações e nas leituras de mundo de quem faz ED – a formação realizada com a PPONGD foi disso um exemplo - e que continuasse a contribuir para alargar os sentidos e os significados que a palavra “Economia” tem - trocar, dar, fazer com são formas de economia – retirando-os na forma e no conteúdo do reino dos especialistas, sejam eles/as, académicos, gestores ou corretores de Wall Street. Para transformarmos as relações entre pessoas, comunidades e países, temos que mudar os “termos da troca”, temos que nos apoderar da economia, porque ela perpassa a(s) nossa(s) vida(s).