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16 nov 2022 Fonte: Revista da Plataforma Portuguesa das ONGD Temas: Educação para o Desenvolvimento e a Cidadania Global

 

 

Luísa Teotónio Pereira

Entrevista realizada por Rita Leote

Esta entrevista foi originalmente publicada na Edição da Revista da Plataforma Portuguesa das ONGD de novembro de 2022 "Educação para o Desenvolvimento e a Cidadania Global em Tempos de Mudança" Leia ou faça download da edição completa da Revista aqui.
 

Tendo em conta o contexto atual, fortemente marcado por vários tipos de crises e transformações, que importância e força política tem a EDCG no panorama europeu e nacional? Os países tendem a valorizar a EDCG e a aumentar o financiamento para essa área?

Esta pergunta envolve várias perguntas e questões… Tentando destrinçá-las, tendo a abordá-la a partir de dois prismas: o papel dos “praticantes da EDCG” e o papel dos Estados, principais financiadores da sua concretização em vários domínios organizacionais.

A visão, atuação e persistência dos atores de EDCG em época de múltiplas crises que configuram, na verdade, o que podemos chamar uma crise sistémica, profunda, que vem sendo construída desde há muito tempo, e por isso provoca e provocará grandes transformações, é essencial. Sem a sua afirmação coletiva, e a sua exigência, para consigo próprios e para com outros atores, incluindo o Estado, a experiência acumulada de pensamento crítico, reflexão e ação pelo bem comum pode esvair-se no contexto ruidoso em que vivemos.

Claro que parece estarmos perante uma “pescadinha de rabo na boca”. Se não houver apoio, nomeadamente financeiro, às organizações e instituições que praticam e aprofundam a EDCG, tudo se torna mais difícil. Mas para que esse apoio exista, ou continue, e até aumente, é preciso que a EDCG esteja viva, seja atuante e exija o que lhe faz sentido como contributo para sociedades mais equitativas, solidárias e sustentáveis.

A tendência atual dos Estados, de forma geral, e por várias razões, é para se concentrarem nos seus problemas “internos” e para tomarem decisões baseadas em horizontes de curto prazo. O que é absolutamente contraditório com a interdependência global  e com os desafios de longo prazo que se nos colocam. Neste quadro, a luta pelo reconhecimento, a valorização e o apoio à EDCG é para continuar!

Qual o papel da EDCG na mobilização de cidadãos/ãs, conscientes e implicados na Justiça Global, perante um cenário como o atual de extrema complexidade e interdependência globais?

Crescemos como cidadãos e cidadãs em muitos contextos e de muitas formas. A especificidade da EDCG neste processo é que nela há uma intencionalidade, baseada em princípios e valores como a coerência, a corresponsabilidade, a cooperação, a igualdade, a equidade, a participação, a solidariedade. Não para “dar lições”, para “educar outros”, para dizer “como se deve construir um mundo mais justo”, mas para compreender o que estamos a viver, à luz da história coletiva e da nossa experiência enquanto pessoas, para partilharmos as nossas visões diferentes, para encontrarmos caminhos comuns e caminhos complementares, que contribuirão para esse percurso de transformação social.  

Para mobilizar é importante criar espaços e oportunidades de sensibilização, de aprendizagem, de reforço do pensamento crítico, de construção de propostas mais justas e solidárias, na teoria e na prática, e de experimentação refletida.

É exigente porque é um esforço contínuo e porque há muitos ventos a soprar em direção contrária. Também porque não é fácil vermos os resultados do que fazemos, é um navegar em que as nossas convicções têm de ser fortes e partilhadas.

De que forma é que os vários contextos de aprendizagem (formais e informais) devem ser alterados para alcançar uma educação mais holística, que contribua para uma verdadeira mudança sistémica?

Não depende só da EDCG, mas a EDCG pode contribuir para alterar os paradigmas existentes. A transformação cultural é lenta, porque o adquirido, pessoal e institucional, é mais resistente à mudança do que parece. Muitas vezes mudam-se só o vocabulário, ou aspetos superficiais. 

Há alguns pontos (entre outros) que me parecem fulcrais, à luz da ED:
- passar de uma cultura binária para uma cultura plural, da qual os “cinzentos” fazem tanto parte quanto o “preto” e o “branco” - fomos educados na escolha entre o bem e o mal, o bonito e o feio, o feminino e o masculino, a derrota e a vitória, o sucesso e o insucesso… a vida o que nos mostra é que entre um polo e o outro há mundos de possibilidades, de tensões, de combinações…
- acentuar no saber a parte do “compreender”, do aprender a posicionar-se, do explicitar a sua posição e entender a explicitação de outras posições, do construir em comum…
- trabalhar a interligação entre o local e o global, entre cada um/a de nós e o mundo, que está cada vez mais presente na nossa vida diária, e praticamente ausente dos nossos contextos de aprendizagem.

Neste âmbito, qual é o papel que deve ser assumido pelas organizações da sociedade civil? Em que medida e de que forma, a sociedade civil pode inovar no campo da EDCG?

A EDCG é um espaço de encontro e de criação de possibilidades, onde se partilha um horizonte de justiça para a humanidade, enquanto parte da vida do planeta . Um grande desafio hoje para todas as pessoas que se reveem neste horizonte é a sua atomização e acantonamento. É verdade que precisamos de nos sentir acolhidas e nutrirmos um bom sentimento de pertença. A EDCG tem todas as condições, pelas suas perspetivas amplas, interrogativas, aprendentes, de ligação entre o global e o local, de identificação de causas e não só de efeitos, para abrir janelas, bater às portas, estar atenta e disponível para se implicar em várias dinâmicas, propor espaços e ações comuns. A sua lente de reconhecimento e combate às desigualdades, onde quer que se encontrem, às muitas assimetrias que persistem e se aprofundam entre o Norte e o Sul globais, ao valor da solidariedade internacional, é um contributo indispensável.

Neste contexto, a colaboração entre vários tipos de organizações da sociedade civil (formais, informais, mais antigas, mais recentes, locais, de âmbito nacional, focadas em diferentes questões específicas) parece-me uma chave fundamental.
 

Este artigo foi originalmente publicado na Edição da Revista da Plataforma Portuguesa das ONGD de novembro de 2022 "Educação para o Desenvolvimento e a Cidadania Global em Tempos de Mudança". Leia ou faça download da edição completa da Revista aqui.

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