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16 nov 2022 Fonte: Revista da Plataforma Portuguesa das ONGD Temas: Pobreza e Desigualdades, Educação para o Desenvolvimento e a Cidadania Global

Este artigo foi originalmente publicado na Edição da Revista da Plataforma Portuguesa das ONGD de novembro de 2022 "Educação para o Desenvolvimento e a Cidadania Global em Tempos de Mudança" Leia ou faça download da edição completa da Revista aqui.
 

Por Carlota Quintão e Joana Marques – Associação A3S

No mês em que escrevemos este artigo assinala-se o Dia Internacional da Erradicação da Pobreza e somos reiteradamente confrontadas com a perplexidade deste fenómeno. Em Portugal, regista-se um recuo na trajetória de redução da pobreza: uma em cada cinco pessoas está em situação de pobreza após transferências sociais (sem estas 40% da população portuguesa estaria em risco); simultaneamente acentua-se a desigualdade na distribuição de rendimentos – os mais ricos estão ainda mais ricos e os mais pobres estão mais pobres. Do continente africano chegam-nos notícias da pobreza na Nigéria, país detentor de um recurso particularmente valioso na atualidade, o gás natural.

Duas constatações que nos relembram da relação imbricada entre pobreza e desigualdades. Desigualdades estruturais de poder perpetuadas pelos sistemas de desenvolvimento socioeconómico. Começamos por assinalar esta relação porque é precisamente o nosso ponto de partida enquanto autoras do estudo recém-publicado "A urgência de ler o mundo: Pobreza e Desigualdades"1 . É com base no processo de realização deste estudo que redigimos este artigo, procurando olhar para as desigualdades na atualidade a partir da “lente” da Educação para o Desenvolvimento e Cidadania Global – EDCG.

Assinalamos alguns consensos sobre esta lente: que as desigualdades são a causa estrutural da pobreza e da injustiça social; que têm na base estruturas complexas e relações de poder que perpetuam o status quo ; que, à escala global, radicam em processos históricos de exploração e expropriação assentes na colonização e que hoje se continuam a reproduzir sob novas formas; que as narrativas do Norte se impõem como universais, sendo necessário “dar voz” e protagonismo às pessoas de contextos menos favorecidos; que os direitos humanos são uma conquista fundamental para toda a humanidade; que a capacitação das pessoas para a reflexão crítica é fundamental para assumirem responsabilidade sobre as suas ações individuais e coletivas; que a dignidade humana, a igualdade de oportunidades e a equidade no acesso aos recursos são princípios basilares de justiça social.

as desigualdades são a causa estrutural da pobreza e da injustiça social; que têm na base estruturas complexas e relações de poder que perpetuam o status quo 

Assinalamos, contudo, menor consenso sobre “como fazer” a justiça social. Como redistribuir recursos e oportunidades de forma a fazer face às desigualdades? Quais perspetivas teóricas ou empíricas que devem estar na base de uma leitura crítica da realidade e da sua transformação?  Quais os limites dos nossos esforços de universalidade? É nestes dissensos e dilemas que vemos hoje o papel da EDCG na desconstrução de processos e narrativas que legitimam as desigualdades.

A nossa proposta é a de PARAR para olhar à volta e ESCUTAR outras vozes. Reconhecer os limites das nossas linguagens e formas de pensar. As fazê-lo podemos, talvez, ouvir que já passou o tempo de “dar voz” e “empoderar”; é tempo de “deixar falar” na primeira pessoa, “sair da frente”, criar outras escutas para esses saberes, e, quando muito, procurar ser um aliado para amplificar essas vozes. 

O mestre quilombola Antonio Bispo dos Santos questiona-nos até que ponto estamos dispostos a aprender com as comunidades com quem trabalhamos e a assumir que temos expropriado o saber dos povos indígenas2?

é tempo de “deixar falar” na primeira pessoa, “sair da frente”, criar outras escutas para esses saberes, e, quando muito, procurar ser um aliado para amplificar essas vozes

O ciclo Abya Yala em transição3, retomando a designação original do continente latino-americano, reclama que “a ferida do abuso de poder e da colonização faz-se ver e sentir. Hoje é o momento de Sentir, Curar e Agir!” Abrir espaço e tempo para o que este (e outros) continente tem a oferecer e partilhar com o mundo: “Uma enorme diversidade cultural e ecológica, linhagens ancestrais que decidem partilhar a sua voz, múltiplos exemplos de comunidades rurais e urbanas que manifestam uma profunda regeneração do mundo em que querem viver”. 

Reivindicam o direito à sua própria história e gramática, em contraposição à hegemonia das narrativas e racionalidades ocidentais. Recusam retóricas de “reconciliação” baseadas na ideia de que o colonialismo é algo do passado e que, como tal, deixam “a estrutura presente de domínio colonial em grande parte intacta”4, não possibilitando processos efetivos de reparação, nem de relação de forma diferente com o mundo. 

É na proposta da abordagem à EDCG do coletivo Gesturing Towards Decolonial Futures5 - EDCG otherwise – que encontramos pistas mais promissoras. Pistas no sentido de enfrentar de facto a complexidade contra a pressão do imediatismo; de assumir a nossa responsabilidade e cumplicidade individual e coletiva com os problemas globais; de nos expormos à hibridação e contaminação com outros campos e saberes; de resistir à tendência de normatização; de instigar aprendizagens mais profundas através de experimentação, improvisação e reflexividade coletivas; de nos comprometermos a relacionar mais amplamente com o mundo nas suas múltiplas interdependências. 

Notas:
1 Estudo realizado pela A3S no âmbito do projeto "ED-Comunicar: do conhecimento à mobilização", coordenado pela ADRA Portugal, em parceria com AIDGLOBAL - Acção e Integração para o Desenvolvimento Global, Par - Respostas Sociais, Fundação Cidade de Lisboa, Fundação Gonçalo da Silveira, IMVF, Mundo A Sorrir e Rosto Solidário, e cofinanciado pelo pelo Camões - Instituto da Cooperação e da Língua, I.P. A coleção "A urgência de ler o mundo – Estudos Formativos ED-Comunicar” é composta por seis estudos tendo em vista a atualização dos temas que integram o Referencial de Educação para o Desenvolvimento.
2 Conferência A difícil arte da confluência, Culturgest, Outubro 2021, https://youtu.be/XZhhs98SVxc. 
3 https://territorios-america-latina.transitionmovement.org/es/eventos/ 
4 Coulthard, G. S. (2014). Red Skin, White Masks: Rejecting the Colonial Politics of Recognition. Minnesota University Press.
5 Andreotti, V., Stein, S., Suša, R., Čajkova, T., d’Emilia, D., Jimmy, E., Calhoun, B., Amsler, S., Cardoso, C., Siwek, D. (2019). Global Citizenship Otherwise Study Program. Gesturing Towards Decolonial Futures. Disponível em: https://decolonialfutures.net/portfolio/global-citizenship-education-otherwise/ 

 

Este artigo foi originalmente publicado na Edição da Revista da Plataforma Portuguesa das ONGD de novembro de 2022 "Educação para o Desenvolvimento e a Cidadania Global em Tempos de Mudança". Leia ou faça download da edição completa da Revista aqui.

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